As manchas indesejáveis da nossa pele (1ª parte)

 In Rigorosos a cuidar

Com o fim do verão faz sentido abordarmos a questão das manchas da pele. É nesta época do ano que aparecem novas manchas, principalmente na cara e no peito, e as já existentes tornam-se ainda mais escuras.

Contamos com a colaboração da Dra. Mayte Truchuelo, especialista em Dermatologia, para aprofundar o tema neste artigo “Rigorosos a Cuidar”.

 

Cantabria Labs: Para começar, gostaríamos que falasse um pouco sobre o tom da nossa pele.

MT: A pigmentação da pele e o tom cutâneo têm um impacto muito importante no aspecto e na aparência da pele, sobretudo a nível facial. Muitas pessoas sentem-se melhor quando estão bronzeadas, mas a verdade é que a longo prazo isso irá desencadear problemas de pigmentação. Uma pele com pigmentação irregular não é bem vista socialmente e pode também ter conotações de envelhecimento cutâneo.

 

Cantabria Labs: Mas o que são realmente as manchas?

MT: Basicamente as manchas têm origem em três componentes diferentes: a queratina (aspecto amarelado), a hemoglobina (aspecto avermelhado) e a melanina (responsável pelo tom castanho). É precisamente este último pigmento o mais importante na cor da pele. A melanina é sintetizada pelos melanossomas dos melanócitos, localizados nas camadas basais da epiderme, e é transferida para os queratinócitos adjacentes. Assim, nos fototipos escuros, os melanócitos produzem maiores quantidades de melanina, enquanto que nas peles claras a síntese de melanina é menor. Para que se dê esta síntese de melanina, é necessário que ocorram uma série de reações químicas onde a enzima tirosinase tem um papel muito importante, oxidando a tirosina em dihidroxifenilalanina (DOPA). Existem dois tipos de melanina: a eumelanina, típica das peles escuras, e a feomelanina, presente nos fototipos claros.

As manchas são lesões cutâneas que consistem na alteração da coloração normal da pele, resultante da modificação de algum ou de vários destes três componentes. Se existe excesso de queratina, veremos manchas amareladas, se existe excesso de hemoglobina, veremos manchas encarnadas e se existe excesso de melanina veremos manchas castanhas.

A melanina é sintetizada em resposta à radiação ultravioleta mas também em resposta a outros fatores como a MSH (hormona estimulante de melanócitos), fatores de crescimento como o bTGF, endotelina ou citoquinas inflamatórias. Do mesmo modo, a vitamina D pode ter influência na síntese de melanoma. A radiação ultravioleta estimula a síntese da melanina (para defender as células dos potenciais danos causados pelos raios ultravioleta) e por conseguinte a pigmentação.

Os queratinócitos também participam na pigmentação através da síntese de certos sinais (fatores de crescimento) que estimula a transferência da melanina do melanócito para o queratinócito.

 

Cantabria Labs: Que tipos de manchas existem na pele?

MT: Dentro das manchas castanhas (por hiperpigmentação), que são as mais frequentes, sobretudo depois do verão, encontramos diferentes tipos: efélides ou sardas, lentigos actínicos, hiperpigmentação pós-inflamatória, pigmentação periocular e melasma são as mais frequentes.

Como pigmentações mais raras, temos:
– as que surgem como efeitos secundários de determinados tratamentos (por exemplo, quimioterapia);
– a irritação tópica após contacto com certos cosméticos, perfumes, ou como consequência de doenças endócrinas (por exemplo, Doença de Addison);
– outras doenças pouco frequentes.

 

Cantabria Labs: E como se produzem?

MT: Fala-se de tom de pele constitutivo para designar aquele tom causado pela quantidade de melanina determinada pelos genes de cada indivíduo. Fala-se de tom de pele facultativo para denominar a modificação desse tom constitutivo, após exposição à radiação ultravioleta e devido a fatores hormonais.

O escurecimento observado após exposição à radiação ultravioleta está claramente identificado. E pode ser:
– Pigmentação imediata mas transitória, após exposição aos UVA, que se deve a uma oxidação da melanina previamente existente.
– Pigmentação diferida, produzida tanto por radiação UVA como por UVB após 3 dias de exposição solar e que dura 2 semanas. Neste caso existe um aumento na síntese da melanina.

 

Cantabria Labs: Quando aparecem? Podem aparecer em qualquer idade?

MT: O problema da alteração da pigmentação cutânea é extremamente frequente e pode apresentar-se em qualquer idade. No entanto, é um problema mais frequente à medida que envelhecemos.

Os transtornos de pigmentação associados ao fotoenvelhecimento extrínseco (relacionado especialmente com a exposição à radiação ultravioleta) aparecem nas zonas mais expostas ao sol, como a cara, os braços e a zona do decote. No fotoenvelhecimento as manchas cutâneas como as sardas ou lentigos (manchas solares benignas em forma de pontos ou lentilhas, bem delimitadas e de coloração uniforme) misturam-se com as rugas, hipomelanose gutata (manchas puntiformes brancas), alterações na rugosidade da pele, perda de elasticidade, alterações vasculares, etc. Todas esta lesões observáveis a olho nu explicam-se por modificações a nível microscópico, que consistem numa alteração no número e na forma de fibras elásticas e de colagénio, assim como na função dos melanócitos.

O número de melanócitos decresce cerca de 10-20% por cada 10 anos de vida. Uma vez que a melanina absorve a radiação ultravioleta, a pele das pessoas mais velhas vai estar mais desprotegida face ao sol, e por isso terá maior propensão para o desenvolvimento de alterações de pigmentação e de lesões cancerosas.

 

Cantabria Labs: Existem fatores hormonais com influência na pigmentação?

MT: Como já referimos, existem fatores intrínsecos, de natureza hormonal, que também influenciam o excesso de pigmentação cutânea. Assim, temos a hormona estimulante de melanócitos que é uma grande estimuladora na síntese da melanina. Para a sua correta atuação, é necessário um receptor específico, que se estiver alterado (por exemplo, no caso dos ruivos) a pigmentação vê-se diminuída.

A MSH também é responsável pela hiperpigmentação em doenças endócrinas e pela pigmentação no melasma em resposta ao stress, exposição solar e até picos hormonais de estrogénios.

 

Cantabria Labs: Existe uma maior tendência para desenvolver manchas na pele por fatores hereditários?

MT: Sem dúvida. Nem todas as peles têm a mesma propensão para desenvolver pigmentações. Como sempre existe um fator genético individual que torna a pessoa mais propensa ao desenvolvimento de melasma ou de lentigos actínicos. É precisamente essa tendência para a pigmentação que procuramos travar com diferentes tratamentos. Assim, por exemplo as vitaminas C e E mostraram reduzir a hiperpigmentação induzida por RUV (Radiações UV).

 

Cantabria Labs: Como podemos preveni-las?

MT: No caso dos problemas de pigmentação, o principal fator de prevenção será eliminar os agentes desencadeantes, como a exposição à radiação ultravioleta. Para tal, recomenda-se a utilização de filtros solares que protejam face aos UVB, UVA e luz visível. É importante aplicá-los com a frequência certa e em quantidade suficiente para assegurar a proteção. Também aconselhamos o uso de proteção física, como os chapéus, por exemplo.

Podemos também completar esta prevenção aplicando diariamente princípios ativos tópicos cuja atividade despigmentante está comprovada, como a vitamina C combinada com vitamina E, ou os retinoides tópicos, que também têm uma ação hidratante e antienvelhecimento.

Para além disto, atualmente estuda-se o papel de uma alimentação equilibrada que forneça quantidades suficientes de cobre, já que em condições insuficientes favorece uma série de reações químicas que estimulam a hiperpigmentação. Do mesmo modo, podemos recomendar suplementos orais que aumentem a resistência face à radiação ultravioleta, diminuindo a inflamação após a exposição ao sol e consequentemente a pigmentação pós inflamatória, como por exemplo o Polypodium leucotomus.

 

Em Novembro teremos mais um artigo exclusivo “Rigorosos a Cuidar” a aprofundar o tema das manchas. Divulgaremos na nossa página de facebook. Pode seguir-nos em https://www.facebook.com/CantabriaLabsPT